MIME-Version: 1.0 Content-Type: multipart/related; boundary="----=_NextPart_01DD2E25.6391A560" Este documento é uma Página da Web de Arquivo Único, também conhecido como Arquivo Web. Se você estiver lendo essa mensagem, o seu navegador ou editor não oferece suporte ao Arquivo Web. Baixe um navegador que ofereça suporte ao Arquivo Web. ------=_NextPart_01DD2E25.6391A560 Content-Location: file:///C:/D8A65C8C/17.08.26Tecnofascismoeopoderdigital.htm Content-Transfer-Encoding: quoted-printable Content-Type: text/html; charset="us-ascii"
Tecnofascismo: O Autoritarismo Algorítmico=
e a
Usurpação da Legitimidade Democrática
Technofascism: algorithmic authoritarianism
and the usurpation of democratic legitimacy
André Gustavo Corrêa de
Andrade =
* 
Resumo: Este artigo examina o conceito de &=
#8220;tecnofascismo”
como categoria analítica para compreender a convergência entre=
a
arquitetura das plataformas digitais, a concentração de poder
econômico e projetos políticos de orientação
autoritária. Partindo de exemplos como a aquisição do
Twitter (atual X) por Elon Musk, o texto argumenta que o tecnofascismo
representa a apropriação privada dos dados pessoais e da ecol=
ogia
informacional por elites tecnológicas que atuam como agentes
políticos, moldando a opinião pública e corroendo as
instituições democráticas. A metodologia combina a teo=
ria
crítica da tecnologia (Adorno; Horkheimer, 1985; Ellul,
1968, 1973, 2019) com a economia política da comunicaçã=
;o e
a análise histórica comparada. O artigo explora a genealogia =
do
tecnopoder, desde a razão instrumental e a tecnocracia até sua
manifestação contemporânea em formato digital,
identificando cinco pilares estruturais: economia da atenção,
extração de dados e capitalismo de vigilância, poder
algorítmico, opacidade e concentração de poder. Analisa
ainda a base material do poder tecnofeudal e as condições
psicossociais que sustentam a dominação tecnopolítica.
Casos paradigmáticos, como o governo Trump e a gestão de Musk=
no
X, ilustram vias de consolidação do fenômeno. Conclui-se
com a defesa de uma regulação democrática,
transparência algorítmica, fortalecimento institucional e uma
reconstrução ético-cultural para conter a erosã=
o da
esfera pública e reafirmar a primazia do político sobre o
técnico.
Palavras-chave: <= span style=3D'color:black;mso-color-alt:windowtext'>tecnofascismo<= span style=3D'color:black;mso-color-alt:windowtext'>; autoritarismo algorí= ;tmico; plataformas digitais; poder tecnopolítico; Elon Musk; democracia; economia da atenção; opacidade algor&i= acute;tmica.
Abstract: This
article examines the concept of “technofascism” as an analytical
category for understanding the convergence among digital platform architect=
ure,
concentrated economic power, and politically authoritarian projects. Using
examples such as Elon Musk's acquisition of Twitter, the text argues that
technofascism represents the private appropriation of personal data and the
informational ecology by technological elites who act as political agents,
shaping public opinion and eroding democratic institutions. The methodology
combines critical theory of technology (Adorno; Horkheimer, 1985; Ellul, 19=
68,
1973, 2019) with political economy of communication and comparative histori=
cal
analysis. The article explores the genealogy of techno-power, from instrume=
ntal
reason and technocracy to its contemporary digital manifestation, identifyi=
ng
five structural pillars: attention economy, data extraction and surveillance
capitalism, algorithmic power, opacity, and power concentration. It also
analyzes the material basis of technofeudal pow=
er and
the psychosocial conditions that sustain technopolitical domination.
Paradigmatic cases, such as the Trump administration and Musk's management =
of
X, illustrate pathways for the consolidation of the phenomenon. The conclus=
ion
advocates for democratic regulation, algorithmic transparency, institutional
strengthening, and an ethical-cultural reconstruction to contain the erosio=
n of
the public sphere and reaffirm the primacy of the political over the techni=
cal.
Keywords: =
tech=
nofascism;
algorithmic authoritarianism; digital platforms; technopolitical power; Elon
Musk; democracy; attention economy; algorithmic opacity.
INTRODUÇÃO
Quando Elon
Musk adquiriu o Twitter, em 2022, e o rebatizou como X, o que se viu n&atil=
de;o
foi apenas uma simples troca de controle acionário de uma empresa de
mídia social, mas também a implementação de um
projeto personalíssimo de poder político. Em poucos dias,&nbs=
p;Musk
desmantelou as equipes de moderação, as políticas=
de
segurança foram esvaziadas e contas antes banidas por disseminar
violência ou extremismo retornaram à plataforma. Sob a bandeir=
a de
uma suposta “liberdade de expressão sem
restrições”, inaugurou-se uma lógica de
amplificação de conteúdos conspiratórios,
misóginos e antidemocráticos. Concomitantemente, verificou-se=
a
redução sistemática do alcance de vozes progressistas,=
de
movimentos de direitos civis e de pautas identitárias. Em poucas
semanas, o ecossistema informacional da plataforma foi remodelado por decis=
ões
unilaterais, opacas e imunes a quaisquer mecanismos institucionais de contr=
ole
ou de prestação de contas (Conger=
; Mac,
2024).
Musk passou=
a
utilizar a plataforma como instrumento para intervir ativamente em debates
eleitorais, atacar adversários políticos, pressionar governos
estrangeiros e defender abertamente agendas de extrema-direita. Em 25 de
janeiro de 2025, participou, por videoconferência, de reunião =
do partido
de extrema-direita alemão “Alternativa para a Alemanha=
221;
(AfD), dizendo, entre outras coisas: que os mem=
bros
do partido são “a melhor esperança para a Alemanha̶=
1;;
que não se deve perder o orgulho da cultura e dos valores alem&atild=
e;es
“em algum tipo de multiculturalismo que dilui tudo”; e, em uma
óbvia alusão ao passado nazista, disse que, “francament=
e,
há um foco excessivo na culpa do passado, e precisamos superar isso&=
#8221;
(Treisman, 2025).
Além
disso, Musk, que participou ativamente e financeiramente da campanha de Don=
ald
Trump e esteve por alguns meses à frente do Departamento de
Eficiência Governamental (Department of Government Efficiency,
DOGE) do governo de Trump, interferiu na formação de narrativ=
as
públicas nos Estados Unidos, na Europa e na América Latina, q=
uase
sempre a partir de pautas ideológicas contrárias à
regulação democrática e hostis às lideran&ccedi=
l;as
de centro ou de esquerda (Ingram; Horvath, 2025=
; Lory, 2025).
Esses
episódios demonstram, de forma cristalina, não apenas o grau
extremo de concentração do poder político e
simbólico nas mãos dos proprietários das plataformas
digitais, mas também o risco real de esse poder concentrado se conve=
rter
em uma arma perigosa quando exercido por agentes privados com vieses
autoritários.
Eles s&atil=
de;o
a representação mais visível de um fenômeno
estrutural mais profundo e perigoso, que este artigo propõe analisar=
: o tecnofascismo.
O termo, que ganhou relevo no debate público a partir da déca=
da
de 2020, é empregado aqui como categoria analítica central, i=
ndicativa
da associação entre plataformas digitais e movimentos ou proj=
etos
políticos de orientação autoritária.
A
hipótese que orienta este texto é a de que o tecnofascismo
constitui a manifestação política de um processo
estrutural mais amplo: a apropriação privada e a instrum=
entalização
da ecologia informacional[1]=
por projetos autoritários. Para compreendê-lo, é
crucial examinar não apenas as plataformas de mídia social co=
mo as
conhecemos hoje, mas também o papel das novas tecnologias de
fronteira, como a Inteligência Artificial generativa, as deepfakes e os sistemas preditivos de
vigilância. Essas ferramentas estão se tornando a nova
infraestrutura do autoritarismo, permitindo, por meio da
apropriação de dados pessoais, a manipulação
hiper-realista da realidade factual, a vigilância comportamental e a
automatização da discriminação e do controle
social.
O objetivo
geral do artigo consiste, portanto, em esclarecer o conceito de “tecn=
ofascismo”
e suas múltiplas manifestações. De modo específ=
ico,
busca-se: identificar suas raízes históricas e teórica=
s;
examinar suas diferentes configurações na era digital; e anal=
isar
como essas camadas se articulam na atual configuração do poder
tecnopolítico.
A meto=
dologia combina
pesquisa teórico-bibliográfica no campo das teorias
críticas da tecnologia e da economia política da
comunicação com análise histórica comparada e
discussão crítica de episódios contemporâneos.
Compreender=
o
tecnofascismo, suas lógicas, seus agentes e seus pontos de
vulnerabilidade constitui condição indispensável para
pensar em estratégias de contenção que visem a recuper=
ar e
preservar as condições básicas da vida democrát=
ica
em um ambiente cada vez mais mediado por infraestruturas privadas de
comunicação.
1 TECNOFASCIS=
MO:
NOTAS PARA UMA CONCEITUAÇÃO
O termo
“tecnofascismo” não é inteiramente novo nem tem um
significado unívoco. Sua utilização relativamente rece=
nte
no debate público e acadêmico responde à necessidade de
nomear formas emergentes de dominação política que
não se ajustam plenamente às categorias clássicas do
fascismo histórico nem podem ser compreendidas como simples desvios
autoritários no interior da democracia liberal. A recorrência =
do
termo indica o esforço de capturar uma transformação do
poder, na qual a técnica deixa de desempenhar um papel instrumental e
passa a constituir o próprio exercício da dominaç&atil=
de;o
política.
Entre as
abordagens contemporâneas que recorrem explicitamente ao conceito,
destaca-se a reflexão desenvolvida pela filósofa italiana
Donatella Di Cesare na obra Tecnofascismo. Em
sua análise, o tecnofascismo não se reduz à
manipulação informacional nem à
radicalização do discurso político no ambiente digital.
Trata-se, antes, de uma forma de poder que articula técnica, soberan=
ia e
exclusão, que opera por meio da negação da
coexistência entre grupos, da criação de fronteiras
internas e da administração discriminatória das difere=
ntes
formas de vida (Di Cesare, 2025). Nos capítulos dedicados às
“pulizie e=
tniche”
e à “democrazia immunitaria”, Di Cesare mostra como tecnolo=
gias
digitais de vigilância, classificação e
predição podem ser mobilizadas para sustentar projetos etnocráticos, políticas de
segregação e práticas discriminatórias,
frequentemente sob a aparência de neutralidade técnica e
racionalidade administrativa.
Em uma pers=
pectiva
distinta, Janis Mimura emprega o termo “<=
i>techno-fascism” na obra Planning for Empire=
para
designar uma forma histórica de autoritarismo tecnocrático no
Japão do período imperial. Nesse contexto, o tecnofascismo
caracterizou-se pela ascensão de uma elite de planejadores, burocrat=
as e
especialistas que, em nome da eficiência, da produtividade e da
organização racional da economia, promoveu a fusão ent=
re o
Estado, o aparato militar e agências técnicas. Diferentemente =
do
fascismo carismático ou do militarismo tradicional, essa forma de
dominação legitimava-se pela promessa de prosperidade, ordem e
coesão orgânica da comunidade nacional, deslocando conflitos
distributivos e dilemas éticos para o terreno supostamente neutro da
gestão técnica.
Apesar das
diferenças de contexto, escala e objeto, essas abordagens convergem =
em
pontos fundamentais. Em ambas, o tecnofascismo aparece como uma modalidade =
de
poder que desloca a política do espaço da
deliberação pública para o da administraç&atild=
e;o
técnica. Ele subordina valores democráticos a preceitos de
eficiência, segurança ou produtividade e tende a naturalizar
práticas de exclusão, controle e hierarquização
social por meio de dispositivos técnicos.
É ne=
sse
horizonte que o presente artigo emprega o conceito de tecnofascismo. Aqui, =
ele
não designa um regime político formalmente constituído=
nem
se prende aos exemplos históricos, mas se refere à
emergência de uma racionalidade autoritária adaptada às
condições tecnológicas e institucionais do tempo prese=
nte.
A escolha do
termo não é arbitrária nem imune à
controvérsia. Conceitos alternativos, como tecn=
oautoritarismo,
tecnopopulismo ou tecnocracia, captam
dimensões parciais do fenômeno, mas nenhum deles abrange sua
especificidade. O tecnoautoritarismo descreve
adequadamente regimes que utilizam a tecnologia para concentrar poder e
suprimir dissidências, mas não alcança a dimensã=
o de
mobilização afetiva, de produção de identidades
excludentes e de hostilidade visceral ao pluralismo que caracteriza o
fenômeno aqui examinado. O tecnopopulismo
designa uma estratégia comunicativa, qual seja, o uso das plataformas
digitais para construir vínculos diretos entre líderes e
seguidores, à margem das mediações institucionais, mas
não é, por si só, uma forma de dominação,
pois o populismo pode ser democrático ou autoritário dependen=
do
do projeto que o anime. Por sua vez, a tecnocracia, como se verá
adiante, é antes uma pré-condição estrutural do=
que
o fenômeno em si. Ela cria a infraestrutura e a mentalidade que um
projeto autoritário pode capturar e redirecionar.
O que justi=
fica
o uso de “fascismo” como qualificador é precisamente o q=
ue
Umberto Eco (1998) identificou ao analisar o que chamou de Ur-Fascismo=
i>.
No seu ensaio, Umberto Eco emprega o prefixo “Ur”, que, em
alemão, significa “originário”,
“primordial” e “ancestral”, para designar nã=
o um
fenômeno histórico delimitado, como o fascismo italiano, mas um
núcleo arquetípico e persistente do fascismo, composto por
características políticas recorrentes que podem reaparecer em
distintos contextos históricos, assumindo formas e linguagens ajusta=
das
às circunstâncias de cada época. O fascismo não =
tem uma
essência única nem uma ideologia coerente. Ele é, nas s=
uas
palavras, um “totalitarismo fuzzy&=
#8221;,
uma colagem de ideias e disposições contraditórias que=
, no
entanto, produz efeitos políticos reconhecíveis.
Com o fasci=
smo,
argumenta Eco, ocorre o que Wittgenstein identificou na noção=
de
“jogo”: suas diferentes manifestações
históricas não partilham uma característica
necessária a todas, mas apresentam entre si semelhanças de
família, ou seja, um conjunto de traços típicos dos
quais cada configuração fascista exibe alguns, sem que nenhum
seja indispensável. Basta que um número suficiente desses
traços esteja presente para que se forme o que Eco chama de “n=
ebulosa
fascista”. Entre esses traços figuram o culto da
ação em detrimento da deliberação, o medo da
diferença, a produção sistemática de identidades
excludentes, o populismo seletivo que invoca uma vontade popular indistinta
contra elites supostamente corruptas e o desprezo pela mediaçã=
;o
institucional democrática.
São
exatamente essas dinâmicas, e não apenas o autoritarismo
genérico ou a mera instrumentalização da tecnologia, q=
ue
se observam na convergência entre plataformas digitais
oligárquicas, projetos políticos antiliberais e a cultura =
220;broligárquica”[2]=
do Vale do Silício. A diferença em relação ao
fascismo histórico não está na substância, mas na
forma: como Thomas Mann já havia intuído, o fascismo do futuro
não se anunciaria como tal, mas reivindicaria para si a linguagem da
liberdade (Corngold, 2022 apud Ross, 202=
2).[3]=
Para
compreender a versão tecnológica do fascismo contemporâ=
neo,
é importante entender essa apropriação ou subvers&atil=
de;o
semântica, na qual conceitos normativamente centrais para a
tradição democrática, como o de liberdade, são
apropriados e esvaziados de seu conteúdo crítico. Não =
se
trata de um autoritarismo que se impõe frontalmente à liberda=
de,
mas de um que invoca a liberdade de forma puramente retórica para
legitimar políticas de desregulação estatal, de imunid=
ade
ao controle público e de concentração privada de poder=
.
O tecnofasc=
ismo,
assim compreendido, constitui uma forma contemporânea de poder
tecnopolítico que emerge da convergência entre infraestruturas
digitais privadas, a concentração extrema de poder e projetos
políticos de orientação autoritária. Sua marca
distintiva reside em um conjunto de práticas e característica=
s: a
substituição progressiva da deliberação
democrática por formas de gestão técnica desprovidas de
transparência; a privatização ou
terceirização de funções tipicamente estatais; a
imunização das decisões de agentes privados frente a
mecanismos de controle e responsabilização; e o uso de
tecnologias digitais para classificar, segmentar, vigiar e disciplinar
populações.
Nessa
acepção, o tecnofascismo é uma forma de poder
autoritário que não depende necessariamente da supressã=
;o
formal das instituições democráticas. Em vez disso, ele
influi e afeta as democracias formais por meio da arquitetura das plataform=
as
digitais, da economia da atenção e da lógica do
capitalismo de dados. Pode manifestar-se tanto pela captura privada da esfe=
ra
pública por agentes econômicos dotados de poder infraestrutural
quanto pela simbiose entre Estados iliberais e corporações
tecnológicas, unificados por uma racionalidade que privilegia
eficiência, controle e segurança em oposição ao
pluralismo, à crítica e aos direitos fundamentais.
Parte-se da
premissa de que o tecnofascismo não constitui uma anomalia
episódica ou um desvio excepcional, mas sim uma
configuração tecnopolítica contemporânea.
2 A MÁ=
QUINA
TECNOFASCISTA EM AÇÃO
O tecnofasc=
ismo
pode assumir mais de uma forma de manifestação. A primeira em=
erge
quando agentes privados, na condição de proprietários =
de
grandes plataformas digitais, mobilizam o poder que detêm sobre a for=
mação
e a circulação do discurso público em favor de uma
orientação autoritária, pela amplificaçã=
o ou
tolerância de conteúdos extremistas, discursos de ódio
dirigidos especialmente contra imigrantes e minorias étnicas, raciai=
s,
religiosas e sexuais, e manifestações de apoio a indiví=
;duos,
movimentos, governos ou ideias contrárias à democracia, bem c=
omo
pela redução deliberada da visibilidade de vozes e
posições contrárias à sua visão de mundo.
Essa intervenção compromete direitos fundamentais, atinge
minorias, vilificando-as ou desumanizando-as, e deforma as bases normativas=
da
deliberação democrática.
A
interferência ostensiva e personalista de Elon Musk na esfera
pública, por meio da rede social X, constitui a expressão mais
paradigmática dessa primeira forma de tecnofascismo. Como
proprietário de uma infraestrutura global de comunicaçã=
;o,
Musk passou a exercer poder discricionário para reescrever normas,
alterar a arquitetura da plataforma e gerir sua população de
usuários por meio de banimentos, reativações e mudan&c=
cedil;as
unilaterais de políticas internas. Sob a retórica da liberdad=
e de
expressão, promoveu mudanças estruturais que enfraqueceram
mecanismos de moderação, flexibilizaram limites ao discurso
extremista e ampliaram seu controle pessoal sobre as condiçõe=
s de
circulação e visibilidade dos conteúdos. A plataforma
reconfigurada passou então a ser instrumentalizada para interferir
diretamente em debates públicos e processos políticos de dive=
rsos
países, com atuação marcada pelo ataque a
instituições democráticas, pelo apoio a movimentos e
lideranças de extrema-direita, pela hostilidade a políticas
progressistas e pela amplificação de teorias da
conspiração (Henley, 2025). O caso evidencia como o controle
privado de uma infraestrutura central da comunicação digital =
pode
ser mobilizado para deformar o debate público, favorecer agendas
antidemocráticas e influir negativamente na formação da
opinião pública.
A segunda f=
orma
de manifestação do tecnofascismo surge da convergência
entre agentes privados e o poder estatal. Nessa hipótese, o Estado se
vale do aparato tecnológico controlado por grandes
corporações, com a colaboração, adesão ou
aquiescência destas, para ampliar sua capacidade de vigilância,
perseguição, controle social e violação de dire=
itos
individuais e coletivos. Essa simbiose torna-se particularmente grave quand=
o é
dirigida a grupos vulneráveis ou minorias políticas,
étnicas, raciais, religiosas ou sexuais, ou quando é mobiliza=
da
para enfraquecer instituições democráticas e os limites
normativos ao exercício do poder.
Um exemplo
estrutural dessa simbiose encontra-se na trajetória de Peter Thiel e na empresa que cofundou, a Palantir
Technologies. Thiel, também cofundador do
PayPal e um dos maiores doadores políticos da elite tecnológi=
ca
norte-americana, sustenta posições explicitamente antiliberai=
s.
Em ensaio publicado em 2009 no fórum “Cato Unbound”,
afirmou não acreditar mais na compatibilidade entre liberdade e
democracia, por entender que os mecanismos democráticos passaram a
funcionar como entraves estruturais à efetivação da
liberdade (Thiel, 2009).[4]=
Alex Karp, cofundador e principal executivo da Palanti=
r,
representa outra face desse mesmo arranjo. Embora tenha origem acadêm=
ica
crítica e um passado de apoio a causas democráticas, Karp pas=
sou
a adotar posições alinhadas a políticas rígidas=
de
segurança e a formas intensificadas de cooperação entre
corporações tecnológicas e agências estatais,
promovendo a ideia de que a tecnologia de vigilância e análise=
de
dados fortalece valores civilizatórios, ainda que em detrimento do
escrutínio democrático e da proteção de direitos
civis (Curi, 2025).
A Palantir, fundada em 2004 com investimento inicial da=
Agência
Central de Inteligência (CIA)[5]=
,
é hoje uma das principais fornecedoras de software para o
exército, agências de inteligência e órgão=
s de
segurança dos Estados Unidos, incluindo o ICE, agência
responsável pelo controle de fronteiras e da imigração
irregular, cujas táticas agressivas têm sido marcadas por
violência contra imigrantes e manifestantes. A empresa assegurou
contratos bilionários, como um de 10 bilhões de dólares
com o Pentágono (Sowka, 2025). Sua
atuação ilustra como o núcleo operacional do poder est=
atal,
na área de segurança, vigilância e inteligência, =
tem
sido progressivamente transferido para corporações privadas
orientadas por uma lógica de lucro e de poder que colide com os
fundamentos democráticos.
O segundo
mandato presidencial de Donald Trump ilustra bem como essa simbiose entre
tecnologia digital e poder público opera em contextos de democracia
formal ainda preservada. No governo Trump, consolidou-se uma convergê=
ncia
estratégica entre um projeto político declaradamente antilibe=
ral
e os interesses das grandes plataformas digitais e da cultura tecnolibertária. Por meio de uma retóri=
ca
desregulatória e de acusações recorrentes de censura p=
or
parte da esquerda, o governo criou um ambiente de permissividade que incent=
ivou
as empresas a reduzir equipes de moderação, relaxar
políticas de integridade e reativar contas anteriormente suspensas p=
or
discurso extremista (Paris, 2025). A pretensa neutralidade dessa postura
revelou sua face instrumental no caso do TikTok. A permanência da
plataforma nos EUA foi condicionada a um arranjo de governança que
transferiu seu controle operacional a entidades chanceladas pelo Estado
norte-americano, sob a justificativa de segurança nacional (Estados
Unidos, 2024).[6]
A arquitetu=
ra
informacional, no tecnofascismo, é moldada não por
princípios universais de liberdade, mas por alinhamento
ideológico. A retórica da liberdade de expressão absol=
uta
funciona como uma ferramenta de poder estratégico. Essa liberdade
é invocada para proteger discursos de aliados e é silenciada =
para
suprimir dissidências, consolidando o Estado como uma espécie =
de arquiteto
ativo de uma “economia política da verdade”. A
semelhança com o “Ministério da Verdade” descrito=
por
Orwell (2004) em 1984 não é casual. Como na distopia <=
span
class=3DSpellE>orwelliana, trata-se de controlar os fatos e as narra=
tivas
para que se alinhem à versão oficial do poder.
Outro epis&= oacute;dio revelador dos riscos decorrentes da dinâmica entre o poder autoritário e a tecnologia digital ocorreu já em 2026, quando= o governo Trump impôs à empresa de inteligência artificial= Anthropic a exigência, sem precedentes, de acei= tar um contrato que autorizasse o uso de sua tecnologia para “qualquer finalidade legalmente permitida” — formulação que= , na leitura da empresa, cobriria a vigilância doméstica em massa de cidadãos americanos e o emprego de sistemas de armas letais autônomas sem supervisão humana. Diante da recusa da Anthropic, o presidente Trump ordenou que todas as agências federais cessassem o uso de seus produtos, e o Pentág= ono a classificou como “risco à segurança da cadeia de suprimentos nacional”, designação, pela primeira vez na história, aplicada a uma empresa americana, não por falha de segurança, mas por recusar-se a remover salvaguardas éticas (Wang, 2026). Em poucas horas, a OpenAI anunciou um acordo próprio c= om o Departamento de Defesa (Bond; Brumfiel, 2026).<= o:p>
O
episódio expõe a lógica do tecnofascismo em estado pur=
o: o
Estado não apenas utiliza o aparato tecnológico privado, mas =
também
exerce pressão coercitiva sobre as corporações que
resistem à remoção de limites normativos, punindo, com
exclusão e estigmatização, as que recusam a
subordinação irrestrita aos imperativos do poder. A
exigência de acesso sem salvaguardas à IA para fins de
vigilância doméstica e de autonomia letal revela que a
fusão entre tecnologia e poder estatal não é apenas uma
tendência estrutural: é um projeto declarado.
A
transferência tecnopolítica do núcleo operacional do Es=
tado
assume sua expressão mais grave quando aplicada a contextos de
dominação armada e de violação sistemáti=
ca dos
direitos humanos. O relatório da relatora especial das
Nações Unidas para os Direitos Humanos nos Territórios
Palestinos Ocupados, Francesca Albanese, docume=
nta a
participação ativa de corporações globais de
tecnologia na sustentação material das operações
militares israelenses em Gaza (ONU, 2025).[7]=
O documento descreve como sistemas avançados de vigilância,
análise massiva de dados, inteligência artificial e reconhecim=
ento
facial, fornecidos por empresas privadas, integram a infraestrutura que
viabiliza o controle populacional, a seleção de alvos e a
automação de práticas letais contra a
população palestina. O relatório identifica uma
transição explícita de uma “economia da
ocupação” para uma “economia do genocídio&=
#8221;,
na qual a tecnologia deixa de ser mero instrumento auxiliar e passa a
constituir elemento estrutural da violência estatal. Nesse contexto, =
as
empresas de tecnologia não apenas se beneficiam economicamente de
contratos militares e de segurança, mas também se tornam copartícipes de um regime de dominaç&at=
ilde;o
e aniquilação que opera segundo critérios de
eficiência técnica, opacidade decisória e ausência
total de responsabilização moral, política ou jur&iacu=
te;dica.
O emprego da tecnologia digital para facilitar a violência letal cont=
ra
grupos ou populações constitui um caso-limite do tecnofascism=
o,
no qual a racionalidade técnica, privatizada e automatizada, sustenta
políticas de extermínio sob a aparência de mera
gestão algorítmica da segurança.
A marca
distintiva do tecnofascismo, seja pela ação direta de
corporações privadas, seja pela sua simbiose com o poder esta=
tal,
está na articulação entre poder tecnológico
concentrado e uma orientação política fundada na
exclusão, na hostilidade ao pluralismo, na desumanizaçã=
;o
do outro e no desprezo pelos direitos fundamentais e pelas
instituições democráticas. O fenômeno pode assum=
ir
graus distintos de intensidade, desde a captura privada da esfera
pública até a integração direta entre a tecnolo=
gia
digital e a violência estatal. Em contextos democráticos forma=
is,
frequentemente se manifesta de forma menos explícita, por meio da
remoção de limites normativos e da legitimação
política de tendências autoritárias inerentes à
própria arquitetura das plataformas.
O que os
exemplos examinados demonstram, em todo caso, é que o tecnofascismo
não constitui mera hipótese teórica. Ele já se
manifesta, sob formas variadas, na conjugação entre o controle
privado dos meios digitais, a terceirização tecnológic=
a de
funções estatais, a flexibilização de freios
democráticos e o uso político das infraestruturas informacion=
ais
para fins de dominação, vigilância e
manipulação.
3 RAÍZ=
ES HISTÓRICAS
DO TECNOFASCISMO
Ao longo do
século XX, diferentes regimes recorreram à autoridade
técnica para legitimar projetos de centralização,
disciplinamento social e modernização autoritária. A
técnica assumiu, nesses regimes, a função de
princípio legitimador, e a figura do especialista tornou-se o eixo da
tomada de decisões. A política foi reconduzida ao âmbit=
o da
administração, e os conflitos sociais passaram a ser tratados
como problemas de gestão. Esses antecedentes oferecem o pano de fundo
necessário para interpretar a ascensão, no século XXI,=
de
formas privatizadas e transnacionais de dominação
tecnopolítica.
A Uni&atild=
e;o
Soviética constitui um dos exemplos mais emblemáticos da
fusão entre técnica, poder estatal e autoritarismo. A economia
planificada soviética, estruturada pelo Comitê responsá=
vel
pela formulação e coordenação dos planos
econômicos plurianuais, o “Gosplan”[8]=
,
não operava como mero instrumento de coordenação
econômica, mas também como dispositivo central de comando
político. Como mostra Michael Ellman (20=
14), o
planejamento socialista não se limitava à
organização técnica da produção, mas tam=
bém
penetrava profundamente na gestão do trabalho, na alocaç&atil=
de;o
de recursos humanos e na própria definição das priorid=
ades
sociais, frequentemente subordinadas a imperativos militares e
geopolíticos. Amparada na doutrina do “socialismo
científico” — expressão consolidada por Friedrich Engels (2022=
) para
distinguir o marxismo das correntes utópicas, baseando-se na premiss=
a de
uma análise objetiva das leis históricas —, a linguagem=
do
cálculo e da racionalidade elevou a ideologia de Estado à
condição de ciência dotada de leis objetivas.[9]
Com isso, o regime transformava o planejamento central em imperativo
inquestionável, deslegitimando qualquer dissenso político como
mera irracionalidade. O aparato técnico, nesse contexto, funcionou c=
omo
mediador entre o poder e a sociedade, convertendo escolhas preponderantemen=
te
políticas em supostas necessidades objetivas (E=
llman,
2014).
No Jap&atil=
de;o
das décadas de 1930 e 1940, analisado por Janis Mimura,
observa-se uma configuração política distinta, por&eac=
ute;m
estruturalmente convergente. Um grupo de burocratas reformistas, engenheiro=
s e
economistas desempenhou um papel central na condução do Estad=
o e
do projeto imperial japonês. Esses tecnocratas não se apresent=
avam
como ideólogos do militarismo tradicional, mas como gestores raciona=
is
de um projeto de modernização acelerada e de expansão
imperial. A experiência de Manchukuo, Est=
ado
fantoche estabelecido pelo Japão imperial na Manchúria entre =
1932
e 1945, funcionou como laboratório de uma forma de
dominação tecnopolítica, na qual o planejamento
econômico, a organização científica da
produção e o controle burocrático se articularam a um
regime autoritário e expansionista (Mimura,
2011).
No Brasil da
ditadura militar, a tecnocracia econômica desempenhou um papel decisi=
vo
na legitimação do regime, sobretudo durante o chamado
“milagre econômico”, expressão de uso corrente que
remete ao período de crescimento acelerado do PIB brasileiro entre 1=
968
e 1973, sustentado por políticas desenvolvimentistas que conviveram =
com
arrocho salarial, forte concentração de renda e endividamento
estatal. Esse período foi acompanhado pelo endurecimento institucion=
al,
inaugurado pelo AI-5, de 13 de dezembro de 1968, que marcou a fase mais dur=
a do
regime, com a supressão de garantias e a expansão de poderes
excepcionais da ditadura militar. Economistas, engenheiros e planejadores f=
oram
elevados à condição de intérpretes privilegiado=
s do
interesse nacional, enquanto a repressão política e a
supressão sindical asseguravam a implementação de
políticas, definidas de cima para baixo. A linguagem do
desenvolvimento, da modernização e da pretensa neutralidade
econômica serviu para obscurecer a violência institucional e a
exclusão democrática, blindando o governo contra críti=
cas
e reduzindo o espaço da política a um problema técnico=
de
gestão macroeconômica (Loureiro, 1997).
Experi&ecir=
c;ncia
análoga pode ser observada no Chile de Pinochet, onde os chamados
“Chicago Boys”, economistas formados sob a forte influênc=
ia
da ortodoxia neoliberal da Universidade de Chicago, atuaram como núc=
leo
intelectual e técnico do regime. Sob a retórica da
eficiência de mercado e da racionalidade econômica, reformas es=
truturais
profundas foram implementadas em um contexto de supressão
sistemática de direitos e de eliminação da
oposição política. Nesse cenário, a propalada &=
#8220;liberdade
econômica” teve como preço o sacrifício das
liberdades civis. A tecnocracia econômica funcionou, novamente, como
instrumento de despolitização do poder e de
neutralização do conflito social, maquiando um projeto brutal=
de
reengenharia da sociedade como se fosse um mero imperativo técnico
(Silva, 2008).
Na Argentin=
a, o
regime instaurado pelo golpe de 1976, o autodenominado Processo de
Reorganização Nacional (1976-1983), levou essa dinâmica=
ao
extremo. A combinação entre a cúpula militar e tecnocr=
atas
civis sustentou um projeto que tratava a sociedade como objeto de uma viole=
nta
engenharia social. Programas de modernização econômica e
administrativa avançaram em paralelo à repressão estat=
al, revelando
uma lógica em que a técnica servia tanto à
racionalização do Estado quanto à justificaç&at=
ilde;o
da violência política. A neutralidade pretendida pelo discurso
econômico funcionou, também aqui, como escudo contra a
contestação democrática ao regime (Novaro; Palermo, 20=
03).
Essas
experiências, apesar de suas diferenças ideológicas e
institucionais, compartilham traços estruturais comuns: a cren&ccedi=
l;a
na superioridade da técnica em relação à
política, a tendência a tratar a sociedade como um problema de
gestão, a marginalização das instituições
representativas e a elevação da eficiência a um valor
normativo central.
Esse pano de
fundo histórico permite compreender como, no século XXI, tais
lógicas reaparecem sob formas privatizadas e transnacionais, agora
mediadas por plataformas digitais, sistemas algorítmicos e tecnologi=
as
de vigilância, configurando o que aqui se denomina tecnofascismo.
3.1<=
/b>
Da tecnocracia analógica ao tecnofascismo digital
Essa geneal=
ogia
permite compreender o tecnofascismo contemporâneo não como uma
ruptura súbita, mas como uma transformação radical do
paradigma tecnocrático até então conhecido. Se as
tecnocracias do século XX eram estatais e territoriais, a vers&atild=
e;o
digital do século XXI passa a ter alcance transnacional.
O poder
tecnocrático contemporâneo é marcado por
características próprias: a natureza privada e transnacional =
do
poder; a mediação algorítmica; a dependência de
extração massiva de dados; uma infraestrutura líquida e
opaca; e a conversão da esfera pública em um ambiente
administrado por corporações.
Trata-se, em
essência, da privatização da tecnocracia. O poder
técnico deixa de ser um instrumento utilizado pelo Estado
autoritário para se tornar o núcleo do projeto de poder de at=
ores
corporativos globais.
As
experiências do século XX mostram que a técnica pode ser
empregada para justificar e operacionalizar projetos de governo
autoritário. Elas também mostram que uma racionalidade
técnica apresentada como neutra pode ser mobilizada para substituir o
debate público e apresentar decisões políticas como
necessidades objetivas. Esse pano de fundo histórico serve para ilum=
inar
a passagem da tecnocracia analógica para formas contemporâneas=
de
dominação tecnopolítica digital privatizadas e
transnacionais, sem, contudo, esgotar sua explicação. A
fundamentação teórica dessa passagem exige um passo
analítico adicional, ao qual a seção seguinte se dedic=
a.
4 A GENEALOGIA DO TECNOPODER=
b>
Para
compreender por que, em certos contextos históricos, a técnica
deixa de ser apenas um instrumento e passa a funcionar como fonte de
autoridade, é importante retomar a tradição crí=
tica
que analisou a conversão da racionalidade técnica em
racionalidade de poder. Essa tradição, formulada na
crítica da razão instrumental e em reflexões sobre a
tecnologia, oferece um referencial teórico importante para reconhecer
que a técnica não atua como uma ferramenta neutra, mas como um
modo de organizar a vida social que carrega implicações
políticas intrínsecas.
4.1 A
crítica da razão instrumental
O marco
inicial dessa linhagem crítica à tecnologia encontra-se =
na
contribuição seminal de Theodor W. Adorno e Max Horkheimer na=
Dialética
do Esclarecimento (1985). Os autores identificam no projeto iluminista =
uma
contradição de consequências profundas. A razão,=
ao
emancipar-se do pensamento mítico tradicional, vinculado à
religião e a diversos tipos de superstições, acaba por=
tornar-se
uma nova forma de mitologia, expressa na crença na “razã=
;o
instrumental”. É um tipo de racionalidade caracterizado pelo
desprezo pelos fins (“por que fazer”) e pela
preocupação exclusiva com os meios (“como fazer”)=
. A
razão instrumental é voltada à dominação=
da
natureza e da sociedade. Sua lógica é a da eficiência, =
do
cálculo e da subjugação do qualitativo ao quantitativo=
.
No
capítulo sobre a indústria cultural, Adorno e Horkheimer
demonstram como os meios de comunicação de massa da ép=
oca,
como o rádio e o cinema, materializam essa razão instrumental=
no
campo simbólico. A produção cultural torna-se um siste=
ma
técnico de padronização, que fabrica consensos, anula o
pensamento crítico e faz com que os indivíduos se integrem ao=
status
quo de forma aparentemente voluntária. O próprio laz=
er, ao
ser administrado pela técnica, torna-se um “prolongamento do
trabalho”. Nessa análise, pode-se enxergar o germe da
crítica contemporânea às plataformas digitais: elas
também são, antes de tudo, sistemas técnicos de
mediação em massa voltados à formataç&atild=
e;o
e padronização da experiência e da consciência
individuais.
Outro autor
importante, Jacques Ellul, radicaliza essa idei=
a em
sua trilogia analítica fundamental sobre a técnica,
composta pelas obras A
Técnica e o desafio do século (1968); A propaganda: as formas induzidas de opini&at=
ilde;o
pública (1973); e O sistema técnico (2019)<=
span
style=3D'mso-bidi-font-size:12.0pt;line-height:150%;mso-bidi-font-family:"T=
imes New Roman"'>.
Para Ellul, a “Técnica” (com "T"
maiúsculo) transcende as máquinas individuais para se tornar =
um “sistema
técnico autônomo” que segue uma lógica interna
imperativa de “eficiência máxima”. Este sistema
técnico apresenta algumas características: é
autorreferente, autoaumentativo e busca subjuga=
r à
sua norma todos os domínios da vida (econômico, polític=
o,
social e até mesmo psicológico). Em tal sistema, a
política não comanda a técnica; ao contrário, a
política é cada vez mais por ela comandada e remodelada.
Na obra =
A propaganda (1962),
Ellul analisa a propaganda não como uma =
mera forma
de mentira política, mas como um subproduto técnico
necessário à manutenção da sociedade
tecnológica, governada pelo imperativo da eficiência. Na refer=
ida
obra, ele distingue dois tipos de propaganda: a “propaganda de
agitação”, que é explícita e tipicamente
usada em regimes totalitários; e a “propaganda de
integração”, mais sutil e difusa, característica=
das
sociedades tecnológicas avançadas. Esta última visa a
adaptar — ou conformar — permanentemente o indivíduo ao
sistema, e o faz buscando harmonizar seus desejos com as necessidades da or=
dem
técnica, por meio de métodos científicos e de formas
contínuas de saturação informacional (Ellul, 1973).[10]
A
convergência entre essas perspectivas permite desvelar o cerne do
tecnofascismo. Ele pode ser entendido como o produto da fusão entre o
sistema técnico elluliano e a razã=
;o instrumental
frankfurtiana, produto esse agora encarnado na infraestrutura material e
algorítmica das plataformas digitais sob controle oligárquico=
. O
que Adorno e Horkheimer viram na indústria cultural e Ellul no siste=
ma
técnico e na propaganda é ainda mais saliente na atualidade: =
as
plataformas digitais são a representação de um sistema
técnico total, no qual a lógica da eficiência, expressa=
em lógicas
de engajamento, crescimento incessante e “datafi=
cação”[11],
reconfigura a comunicação, as relações sociais =
e a própria
política.
As platafor=
mas
operam uma propaganda de integração algorítmica, na qu=
al feeds
de notícias, sistemas de recomendação e de modera&cced=
il;ão
de conteúdo funcionam como um aparato técnico de classifica&c=
cedil;ão
e direcionamento psicológicos, moldando percepções e
comportamentos de modo contínuo e supostamente personalizado.
O desdobram=
ento
dessa dinâmica ocorre com a captura da esfera pública pela
técnica, exemplificada na atuação de figuras como Elon
Musk ou na influência de corporações como a Meta, quand=
o os
proprietários do sistema técnico passam a interferir, direta =
ou
indiretamente, na formação da vontade coletiva e na
condução de processos eleitorais, utilizando a infraestrutura
comunicacional para fins de propaganda, integração
ideológica e alinhamento com governos autoritários.
O que se
verifica é que o tecnofascismo não surge no vácuo nem =
representa
um acidente ou uma mera analogia histórica com as diferentes formas =
de fascismo
do século XX. Ele é a expressão política
contemporânea de uma trajetória histórica longamen=
te
diagnosticada, na qual a autonomia da técnica, sua
concentração nas mãos de poucos agentes privados e sua
fusão com um projeto político autoritário criam uma no=
va e
poderosa forma de dominação.
Esse
domínio não se exerce por meio da força bruta ou de um
autoritarismo estatal aberto. Ele opera pela administração
tecnológica da esfera pública, pela captura sistemátic=
a da
atenção e pela subordinação prática da
liberdade a critérios privados de eficiência e de controle
informacional.
4.2<=
/b>
A tecnocracia como materialização política da raz&a=
tilde;o
instrumental
A tecnocrac=
ia
pode ser definida como o modelo de governança no qual o poder
decisório é transferido de instituições
políticas representativas (partidos, parlamentos) para uma elit=
e de
especialistas (engenheiros, economistas, cientistas de dados, planejad=
ores)
que justificam suas escolhas com base na suposta objetividade
técnica e neutralidade científica. Seu ethos é
o da despolitização. Questões públicas
fundamentais sobre justiça, igualdade e fins coletivos são
transformadas em problemas administrativos de otimização, a s=
erem
resolvidos por meio de algoritmos, modelos econômicos e anális=
es
de custo-benefício.
Como
demonstrado na seção anterior, a racionalidade tecnocrá=
;tica
tem uma genealogia crítica. A “razão
instrumental” de Adorno e Horkheimer encontra na tecnocracia seu
projeto político-institucional pleno. O impulso de dominar a natureza
externa converte-se, aqui, no impulso de administrar a sociedade como um
sistema complexo a ser controlado.
A R=
20;propaganda
de integração” de Ellul, por sua vez, constitui a
comunicação estatal ou corporativa que apresenta decisõ=
;es
técnicas como inevitáveis e fora do debate democrático,
gerando uma atitude de deferência social à autoridade
dos especialistas.
A tecnocrac=
ia,
porém, está longe de ser um fenômeno neutro. Ela prepar=
a o
terreno estrutural e psicológico para formas mais agudas de
dominação técnica. Ao esvaziar a política, a
tecnocracia nega a legitimidade do conflito e da deliberação
sobre fins, fragilizando, assim, os mecanismos democráticos de
resistência e de responsabilização. Ao naturalizar=
o
controle, ela justifica a vigilância, a coleta de dados e a modelagem
comportamental como meras necessidades técnicas para uma melhor
governança. Ao criar a infraestrutura técnica, a tecnocr=
acia
desenvolve sistemas de informação, bancos de dados integrados=
e
plataformas de intervenção social que um projeto ideoló=
;gico
autoritário pode capturar e redirecionar.
Dessa forma=
, a
tecnocracia configura-se como pré-condição necess=
ária
do tecnofascismo. Ela estabelece a hegemonia da lógica técnic=
a,
constrói os aparatos de gestão populacional e dessensibiliza a
sociedade à aceitação de decisões
autoritárias, desde que estas venham perfeitamente embaladas na
linguagem da eficiência e da expertise.
A
transição da tecnocracia para o tecnofascismo ocorre quando t=
oda essa
infraestrutura e essa mentalidade são capturadas por um projeto
político que mobiliza uma ideologia autoritária ou antilibera=
l.
5 A ARQUITE=
TURA
DO TECNOFASCISMO
A simbiose
entre tecnologia digital e pensamento autoritário não decorre=
de
circunstâncias acidentais ou contingentes. Ela é uma
consequência das próprias características estruturais d=
as
plataformas digitais, concebidas para formar crenças, moldar
comportamentos e influenciar o funcionamento das instituições=
. A
economia da atenção favorece a polarização; o p=
oder
algorítmico promove a radicalização; a opacidade
possibilita o arbítrio; a concentração de poder estimu=
la práticas
autoritárias. Essas condições criam o ambiente ideal p=
ara
que agentes políticos iliberais e corporações
tecnológicas ampliem mutuamente sua influência, mesmo quando
partem de motivações diversas. Esses elementos não ape=
nas
facilitam a difusão de discursos extremistas, mas também reco=
nfiguram
as condições da ação política. O
tecnofascismo emerge dessa convergência estrutural.
5.1<=
/b>
Economia da atenção
A economia =
da
atenção constitui o modelo de negócios fundante e=
a
lógica operacional primária das plataformas digitais. Ne=
la,
a captura e a retenção do tempo e do foco dos usuários=
são
quantificadas e convertidas em capital, principalmente por meio da publicid=
ade
direcionada. Como analisado por Tim Wu, essa lógica, embora tenha
raízes mais antigas, em indústrias anteriores do entretenimen=
to e
da mídia, atinge, no ambiente digital, uma escala global, uma
precisão individual e um grau de automatização sem pre=
cedentes,
viabilizados por sistemas integrados de vigilância e controle comport=
amental
(Wu, 2016; Zuboff, 2019).
Toda a
arquitetura das plataformas é otimizada em torno de um único
imperativo: maximizar o “engajamento”. Isso gera
um sistema que privilegia, de forma estrutural e previsível,
conteúdos capazes de provocar reações emocionais imedi=
atas
e de alta intensidade, como indignação, medo ou raiva, em
detrimento de informações complexas, equilibradas ou que exig=
em
contextualização.
O
filósofo Byung-Chul Han (2016) identific=
a, no
meio digital, uma natureza intrinsecamente afetiva, não raciona=
l, explorada
de forma metódica pelas plataformas. Narrativas maniqueístas,
teorias da conspiração e discursos de ódio geram mais
volume de interações do que o debate racional e ponderado, ga=
nhando,
por esse motivo, amplificação algorítmica
prioritária. A consequência é a formação =
de
uma esfera pública polarizada. Atores políticos iliberais
não apenas compreendem essa dinâmica, mas também a
exploram, moldando sua comunicação pública
em slogans, antagonismos e performances de escândalo que o
sistema está programado para reconhecer e promover.
Sem negar a
pertinência analítica da noção de economia da
atenção, Byung-Chul Han prop&otil=
de;e
um deslocamento conceitual relevante. Em vez de uma economia da
atenção, as plataformas digitais fomentariam uma economia da
“distração”. O filósofo sustenta que o
problema central do ambiente digital contemporâneo não seria
propriamente a exploração econômica da
atenção, mas, ao contrário, a progressiva
destruição da capacidade das pessoas de prestarem
atenção ao que é lido (Han, 2025). A
digitalização, ao tornar tudo imediatamente acessível,
calculável e consumível, aplana a atenção e
corrói estados de espírito como a espera, a paciência e=
a
contemplação, que pressupõem duração e
abertura ao indisponível. Em lugar da atenção profunda,
resistente a estímulos, instala-se um regime de excitaç&atild=
e;o
contínua, no qual as informações funcionam como
estímulos de curta duração que fragmentam a
percepção. Redes sociais, motores de busca e interfaces digit=
ais
operam, nesse sentido, como “máquinas de vício”,
dependentes de mecanismos dopaminérgicos que entorpecem a
atenção em vez de mobilizá-la. O resultado é uma
esfera pública composta por “sujeitos permanentemente
distraídos”, mais suscetíveis à
manipulação afetiva, à simplificação
maniqueísta e à adesão acrítica a narrativas
extremistas, condição que, estruturalmente, favorece a
dinâmica tecnofascista.
5.2 Extra&c=
cedil;ão
de dados e capitalismo de vigilância
A economia =
da
atenção não opera no vácuo. Sua eficácia
pressupõe uma infraestrutura de coleta massiva e contínua de
dados pessoais sem a qual os algoritmos de recomendação seriam
cegos, a publicidade microdirecionada seria
impossível e o perfilamento comportamental perderia sua precis&atild=
e;o
preditiva. Os dados são, nesse sentido, a matéria-prima que
sustenta toda a arquitetura das plataformas digitais e cuja
extração sistemática constitui, por si só, uma
forma específica de poder.
Mais do que conhecer e prever nosso comportamento, as plataformas, por meio de processos automatizados de máquina, influenciam e moldam nosso comportamento em larga escala. Detêm, assim, uma forma de poder que transcende os instrumentos tradicionais de dominação. A capacidade preditiva derivada da análise massiva de dados permite identificar vulnerabilidades psicológicas individuais, mapear redes de influ&eci= rc;ncia, antecipar dissidências e calibrar mensagens persuasivas com uma precisão que a propaganda analógica jamais alcançou. <= o:p>
Quando essa
capacidade é orientada por projetos autoritários, seja por
governos que a adquirem de corporações privadas, seja por
corporações que a exercem diretamente sobre a esfera
pública, ela se converte em instrumento de controle social de alcance
sem precedentes na história.
O caso da
Cambridge Analytica, que acessou ilegalmente da=
dos de
milhões de usuários do Facebook para construir perfis comport=
amentais
destinados à influência eleitoral em múltiplos
países, revelou ao grande público uma dinâmica que v&aa=
cute;rios
pesquisadores já antecipavam: os dados pessoais coletados pelas
plataformas podem ser capturados e weaponizados=
por
agentes políticos externos, transformando a infraestrutura comercial=
de
coleta em um aparato de manipulação democrática.[12]
O caso não constituiu uma situação excepcional, mas si=
m a
exposição acidental da lógica estrutural das plataform=
as.
No contexto=
do
tecnofascismo, essa infraestrutura de extração e tratamento de
dados assume um significado ainda mais grave. Quando associada a projetos
autoritários, a coleta massiva de dados deixa de servir apenas &agra=
ve;
maximização do lucro às expensas de seus usuári=
os e
passa a integrar dispositivos de classificação social, de
monitoramento político, de exclusão simbólica e de
controle populacional. A mesma arquitetura que organiza o consumo, distribui
publicidade e recomenda conteúdos pode ser mobilizada para vigiar
dissidentes, mapear adversários, modular afetos coletivos e
reforçar dinâmicas de perseguição ou
segregação. A dataficação<=
/span>
da vida, nesse cenário, converte-se em pré-condiç&atil=
de;o
técnica para novas formas de dominação.
5.3 Poder
algorítmico
Enquanto os
dados pessoais extraídos fornecem a matéria-prima do capitali=
smo
de vigilância, é a lógica algorítmica que transf=
orma
essa matéria-prima em decisões automáticas sobre o que
será visto, priorizado ou invisibilizado, exercendo, assim, uma forma
específica de poder sobre a circulação da
informação.
Os algoritm=
os
atuam como sistemas de previsão que filtram, processam e hierarquiza=
m o
fluxo informacional a partir de modelos estatísticos cujo objetivo
principal é maximizar o engajamento, incluindo tempo de
permanência, cliques, salvamentos, comentários e outros
indicadores, sem considerar o conteúdo substantivo das mensagens.
Pesquisas em
psicologia, comunicação e marketing digital demonstram que
conteúdos baseados em emoções intensas, como medo,
indignação, ressentimento e hostilidade, geram engajamento ma=
is
elevado do que mensagens analíticas, moderadas ou dependentes de
contextualização (Brady et al., 2021; Rathje;
Bavel; Linden, 2021; Milli=
et
al. 2025). Ao privilegiar o que captura reações
rápidas e intensas, essa ordenação algorítmica
reforça vieses cognitivos, estimula a repetição de
crenças já sedimentadas e favorece a formação d=
e “câmaras
de eco”.
O poder
algorítmico projeta efeitos profundos na esfera política,
favorecendo a radicalização discursiva. Mesmo que os algoritm=
os
não tenham sido concebidos deliberadamente para promover extremismos=
, a
lógica algorítmica, por ser orientada a premiar o que captura=
com
maior intensidade a atenção, confere vantagem estrutural a fo=
rmas
de comunicação que simplificam o conflito, exacerbam os antag=
onismos
e transformam a controvérsia pública em combate permanente.
A racionali=
dade
algorítmica não “pensa” em categorias como a verd=
ade,
a justiça ou o pluralismo, ela apenas ajusta, em tempo real, os pesos
atribuídos aos sinais de interação dos usuários=
com
as mensagens, priorizando as que despertam maior engajamento. O resultado p=
rático
é uma espécie de “seleção natural” =
de
narrativas extremadas, simplificadas e maniqueístas, que se tornam,
estruturalmente, mais competitivas no mercado da atenção.
Além=
de
ordenar conteúdos, essa lógica modela ativamente
trajetórias de radicalização. A partir de perfis
comportamentais construídos com base em longas cadeias de dados, os
algoritmos de recomendação aprendem, a cada passo, a propor
conteúdos ligeiramente mais intensos ou mais alinhados a
predisposições prévias, formando percursos de
aprofundamento gradual em comunidades e discursos extremistas (Ribeiro, 202=
0).
Não se trata apenas de isolar usuários em “bolhas de
filtro”, como sugeriu Eli Pariser (2012), mas de conduzi-los por cami=
nhos
de reforço sistemático de crenças e afetos, em que cada
clique alimenta previsões futuras e ajusta a sequência subsequ=
ente
de estímulos. Nesse processo, a fronteira entre
personalização e manipulação torna-se difusa: o=
que
aparece ao usuário não é simplesmente aquilo que ele
“escolheu”, mas o que foi calculado como mais eficaz para
mantê-lo engajado.
Do ponto de
vista teórico, essa lógica algorítmica realiza, de for=
ma
particularmente aguda, o diagnóstico de Adorno, Horkheimer e Ellul. A
razão instrumental, voltada à eficiência e à
dominação, encarna-se aqui em códigos que reduzem
conflitos políticos a variáveis de um problema de
otimização, enquanto a “propaganda de
integração” assume a forma de um fluxo contínuo =
de
recomendações que adaptam subjetividades aos imperativos da o=
rdem
técnica. O tecnofascismo emerge quando essa racionalidade
algorítmica — aparentemente neutra e objetiva — é
capturada ou alinhada a projetos autoritários, tornando-se uma
máquina de selecionar, amplificar e estabilizar narrativas que corro=
em o
pluralismo democrático, sem jamais se apresentar explicitamente como=
tal
(Fuchs, 2007; Moore, 2018).
5.4 Opacida=
de
A opacidade=
ou falta
de transparência é uma característica operacional
essencial e um instrumento de poder das plataformas. Ela est=
á
presente em múltiplos níveis: os critérios de
moderação de conteúdo, os parâmetros dos algorit=
mos
de recomendação, os dados coletados e os contratos com tercei=
ros
são protegidos como segredos comerciais, formando uma verdadeira&nbs=
p;“caixa-preta”
sociotécnica.
Como apontam
estudiosos da governança algorítmica, como Frank Pasquale (20=
15),
essa falta de transparência deliberada impede qualquer forma efetiva =
de
auditoria externa, de controle democrático ou de
contestação pública de decisões que têm
impacto massivo na vida social e política.
A
consequência é a criação de um poder
arbitrário e não responsabilizável. Quando uma platafo=
rma
reduz o alcance de um perfil, promove uma narrativa ou modera conteú=
dos
de forma seletiva, não há parâmetros públicos cl=
aros
para avaliar a justeza ou a motivação da ação. =
Esta
opacidade permite que vieses ideológicos, interesses comerciais ou
pressões políticas sejam executados sob o véu da
neutralidade técnica. Ela dessensibiliza a sociedade para a
aceitação de decisões autoritárias, desde que
apresentadas como resultados de sistemas complexos e incompreensívei=
s.
Assim, a opacidade não só facilita o abuso, mas
também naturaliza a autoridade tecnocrática, erodin=
do o
princípio democrático fundamental de que todo poder deve ser
transparente e responsável perante aqueles sobre quem é exerc=
ido.
5.5 Concent=
ração
de poder
O quinto pi=
lar
estrutural reside na concentração extrema de poder =
em
um oligopólio de corporações que detêm o controle
sobre infraestruturas digitais essenciais. Esse oligopólio ultrapass=
a em
muito um simples domínio de mercado: é
uma concentração de soberania funcional.
Como analis=
ado
por Shoshana Zuboff=
e
outros teóricos do capitalismo de vigilância, gigantes como Me=
ta, Alphabet (Google/YouTube) e X (e=
x-Twitter)
não atuam como meras mediadoras, mas como governantes de
facto de espaços públicos globais. Elas legislam, por
meio dos Termos de Serviço; julgam e executam, através da
moderação de conteúdo; definem as regras da economia da
visibilidade, por meio de algoritmos; e detêm o monopólio da
violência simbólica em seus domínios, por meio de
banimentos e de redução de alcance. Esse poder é ainda
amplificado por sua escala transnacional, o que lhes permite
frequentemente contornar ou pressionar a jurisdição de
Estados-nação democráticos.
Essa
concentração sem precedentes cria uma simbiose estrutural
com projetos autoritários. De um lado, as próprias plataforma=
s,
em busca de estabilidade regulatória e de acesso a mercados, s&atild=
e;o
levadas a negociar e fazer concessões a governos, inclusive a govern=
os iliberais
ou ostensivamente autoritários, em questões de censura e
vigilância. De outro lado, atores políticos autoritários
enxergam nessas infraestruturas um instrumento de poder sem
paralelo para vigilância em massa, propaganda microdirecionada
e supressão de dissidências.
6. A BASE P=
SICOSSOCIAL
DO TECNOFASCISMO
Mais do que=
um
arranjo de infraestruturas e relações de poder, o tecnofascis=
mo
é um fenômeno que incide na cultura e na psicologia coletiva. =
Sua
força reside na capacidade de gerar e explorar emoções,
identidades e valores específicos, forjando um =
ethos
que busca legitimar a dominação tecnopolítica a partir=
da
vida social.
Não =
por
acaso, as plataformas digitais mostram especial afinidade por formas de
liderança política personalistas, anti-i=
nstitucionais
e capazes de mobilizar afetos e antagonismos. Elas favorecem estilos de
comunicação que simplificam conflitos, ignorando nuances,
detalhes e contextos. Em um ecossistema governado pela lógica da
viralidade, do escândalo e da recompensa imediata ao engajamento,
discursos que se apresentam como antissistêmicos encontram
condições particularmente favoráveis à
circulação e adesão, mesmo quando expressam novas form=
as
de dominação. O resultado é uma convergência ent=
re a
infraestrutura técnica das plataformas e uma gramática
política que transforma ressentimento, identificação e
hostilidade em recursos permanentes de mobilização.
Esse proces=
so
encontra ressonância num contexto de insatisfação social
agravado pela transformação radical do espaço
público. Instituições tradicionais de mídia, que
operavam segundo padrões (ainda que imperfeitos) de curadoria
informacional, foram, em grande parte, substituídas por plataformas =
que
se guiam pela lógica do engajamento e da viralidade. Esse contexto
constitui a base psicossocial do tecnofascismo, na qual o autoritarismo se
insinua nos estilos de vida, nas sociabilidades e no imaginário
coletivo.
Um dos elem=
entos
impulsionadores dessa transformação psicossocial é a
cultura política produzida no interior das elites tecnológica=
s contemporâneas,
frequentemente descrita como uma “broligarquia=
span>”
(broligarchy). O termo, que funde “=
;bro” e “oligarquia”, ganhou ampla
circulação na imprensa internacional a partir de janeiro de 2=
025,
com a presença de Musk, Zuckerberg, Bezos e outros magnatas
tecnológicos na posse de Donald Trump em seu segundo mandato como
presidente dos EUA (Lamensch, 2025). A
expressão designa uma cultura de poder
gestada no Vale do Silício e projetada para a arena política,
marcada por uma estética hipermasculinizada,
pela exaltação da competição agressiva e por uma
hostilidade visceral a qualquer forma de regulação. Esse ethos associa sucesso econômico e genial=
idade
técnica a atributos como força, virilidade simbólica e
disposição para o confronto, convertendo-os em critéri=
os
implícitos de legitimidade e transformando a retórica da R=
20;disrupção”
em instrumento de transgressão normativa.
Elon Musk
personifica esse fenômeno com particular nitidez. Sua
atuação no centro do governo Trump, marcada pelo desmonte de
agências governamentais e pela demissão em massa de servidores,
sem qualquer consideração por conflitos de interesse, reflete=
uma
mentalidade que vê o Estado não como espaço de
deliberação, mas como um sistema a ser invadido e reconfigura=
do
por interesses privados.
Mark Zucker=
berg
oferece outro exemplo significativo. Ao defender publicamente a necessidade=
de
mais “energia masculina” (masculine=
energy) no ambiente corporativo e criticar =
o que
chamou de excessos de uma cultura organizacional “feminilizada”=
[13],
Zuckerberg promoveu mudanças na política interna da Meta, val=
orizando
atributos como agressividade competitiva, resistência física e
virilidade simbólica (Bernstein,
2025; Wolf, 2025). Essas mudanças =
se
materializaram na eliminação dos programas de diversidade e
inclusão da Meta, no relaxamento das políticas de
moderação de conteúdo e na aproximação
estratégica da empresa com o campo político conservador.
A
dimensão psicossocial do tecnofascismo não deve ser lida como=
um fenômeno
estético ou geracional. Ao fundir o culto à
disrupção técnica com a celebração da
virilidade antissistema, a broligarquia oferece=
a
justificativa simbólica para o desmonte dos freios democrátic=
os,
substituindo a deliberação pública pela vontade sobera=
na
dos novos oligarcas digitais.
CONCLUSÃO
<=
span
style=3D'mso-bidi-font-size:12.0pt;line-height:150%;mso-bidi-font-family:"T=
imes New Roman"'>O
percurso deste artigo buscou demonstrar que o tecnofascismo não
constitui um regime político formal nem uma categoria unívoca=
. Ele
nomeia a convergência sistêmica (histórica, estrutural e
cultural) entre uma arquitetura digital baseada na atenção, na
coleta massiva de dados, na lógica algorítmica, na opacidade =
das
plataformas digitais e em uma concentração inédita de
poder tecnológico e informacional nas mãos de oligarcas digit=
ais.
Essa convergência busca justificação em um ethos político que celebra a
disrupção tecnológica como antídoto às
deficiências da democracia liberal. Diferentemente de uma ameaç=
;a
externa à democracia, ele representa uma patologia
interna às sociedades hipertecnologizadas<=
/span>,
nas quais a ferramenta se converte em razão e projeto de poder.
O tecnofasc=
ismo,
como se viu, apresenta uma dinâmica própria. Ele captura e
controla os fluxos de informação com uma lógica
economicista, substitui a autoridade institucional pela soberania corporati=
va e
fomenta uma cultura do ressentimento antipolítico, promovendo uma
erosão lenta e cumulativa das instituições
democráticas. Ele não derruba democracias por um golpe, mas as
esvazia por dentro, naturalizando assimetrias de poder e minando a
confiança nos processos deliberativos próprios da democracia.=
Conter essa=
deriva
autoritária não é uma tarefa simples e, por isso, exige
respostas à altura da complexidade do problema. Em primeiro lugar, &=
eacute;
fundamental uma regulação democrática e
inteligente das infraestruturas digitais, que exija transparência
algorítmica, auditorias independentes e responsabilizaç&atild=
e;o
por danos causados pelas plataformas digitais à esfera públic=
a.
Em segundo
lugar, deve-se buscar o fortalecimento de instituições
democráticas capazes de equilibrar este poder: uma imprensa independ=
ente
e robusta, agências regulatórias com expertise e autonomia, e o
fomento a alternativas de infraestrutura pública ou comunitár=
ia
de comunicação digital. Tais contrapesos são essenciais
para evitar que a soberania corporativa, exemplificada pelo controle
discricionário de Musk sobre o X, torne-se hegemônica.
Por fim, e
fundamentalmente, é necessária uma reconstruç&ati=
lde;o
cultural e ética. Não haverá arcabouço legal e
institucional eficaz se persistir a crença fetichista na técn=
ica
como instância última de verdade e de autoridade. É pre=
ciso
reafirmar, nos debates públicos e na educação, a prima=
zia
do político sobre o técnico. Em outras palavras, deve ser
reafirmada a ideia de que os fins da nossa vida coletiva devem ser decididos
por nós, em um processo de debate livre e naturalmente conflituoso, e
não derivados automaticamente de algoritmos ou de visões tecn=
ocráticas,
como as que justificam, sob o manto da “liberdade de expressão=
”,
a amplificação de discursos de ódio e a
desestabilização democrática.
O tecnofasc=
ismo
revela a fragilidade das democracias na era digital. O desafio que ele exp&=
otilde;e
é o de limitar e subordinar as forças colossais da téc=
nica
e do capital à soberania democrática, com todas as suas
vicissitudes e imperfeições, lembrando que a última
palavra sobre o futuro comum deve continuar a ser, sempre, a palavra
política: plural, falível e humana.
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Intrínseca, 2019.
* Doutor em Direito pela Universidade Estácio de Sá. Pesquisador <= span class=3DSpellE>afiliado do Rule of Law Working Group of CEU Democracy Institute. Pr= ofessor do Programa de Pós-graduação da UNESA. Desembargador do Tribunal de Justiça do Estado do Rio de Janeiro.
[1]=
A ecologia informacional =
é
aqui referida como o conjunto de infraestruturas digitais, fluxos massivos =
de
dados (big data) e sistemas algorítmicos que mediam a
experiência contemporânea.
[2] O conceito de "broligarquia" (broligarchy) e suas implicaç&oti= lde;es para a dinâmica do tecnofascismo ser&atil= de;o examinadas na seção 6 deste artigo.
[3]=
A formulação
é amplamente atribuída a Thomas Mann, embora sua
localização exata em um texto específico publicado
não seja precisa. A frase circula em língua
inglesa como: ̶=
0;Let me
tell you the whole truth: if ever Fascism should come to America, it will c=
ome
in the name of freedom.”
<=
span
style=3D'mso-bookmark:_Hlk237716985'>[4]=
No referido ensaio, Thiel afirma de forma
inequívoca: “I no longer believe that freedom
and democracy are <=
span
class=3DSpellE>compatible”. No mesmo texto, sustenta que o
avanço da democracia representativa teria ampliado mecanismos
redistributivos, regulatórios e participativos que, a seu ver,
inviabilizariam a plena realização da liberdade individual.
<=
span
style=3D'mso-bookmark:_Hlk237716985'>[5] Ver MA=
C,
Ryan. CIA-backed data-miner Palantir raises nearly $200 million in latest r=
ound
at estimated $6 billion valuation. Disponível em:
https://www.forbes.com/sites/ryanmac/2013/09/27/cia-backed-data-miner-palan=
tir-raises-nearly-200-million-in-latest-round-at-estimated-6-billion-valuat=
ion/.
Acesso em: 27 mar. 2026.
<= span style=3D'mso-bookmark:_Hlk237716985'>[6] O arranjo mencionado refer= e-se à criação da TikTok USDS Joint Venture LLC, em janeiro de 2026, uma entidade sediada nos EUA que assumiu o controle das operações, dos dados e dos algoritmos da plataforma em solo americano. O acordo, estabelecido para cumprir o = Public Law 118-50, 2024, transferiu 80,1% do controle para investidores globais e norte-americanos, incluindo a Oracle e a Silver Lake, reduzi= ndo a participação da ByteDance a 19,= 9%.
<=
span
style=3D'mso-bookmark:_Hlk237716985'>[7]=
Intitulado "From econ=
omy
of occupation to economy of
genocide" (registrado sob o código
A/HRC/59/23), o relatório foi apresentado ao Conselho de Direitos
Humanos da ONU em julho de 2025 (59ª sessão).
<=
span
style=3D'mso-bookmark:_Hlk237716985'>[8]=
O “Gosplan” (Gosudarstvennyi=
Planovyi Komitet) era=
o
Comitê Estatal de Planejamento da União Soviética. Mais=
do
que um órgão técnico, funcionava como instrumento cent=
ral
de centralização política, subordinando a economia e a
organização social às diretrizes do Partido Comunista.=
<=
span
style=3D'mso-bookmark:_Hlk237716985'>[9]=
Para uma análise aprofundada da racionalidade burocrática do
Estado soviético, ver O século soviético de Mos=
he
Lewin.
[10]
Para a distinção entre propaganda de agitação e=
propaganda
de integração, ver especialmente o capítulo II.
<=
span
style=3D'mso-bookmark:_Hlk237716985'>[11]
Kenneth Cukier e Viktor Mayer-Schönberger =
(2013)
cunharam o termo “datafication”=
;,
definindo-o da seguinte forma: “Refere-se a tomar
informações sobre todas as coisas sob o sol – inclusive
aquelas que nunca imaginamos ser informação, como a localiza&=
ccedil;ão
de uma pessoa, as vibrações de um motor ou a tensão so=
bre
uma ponte – e transformá-las em um formato de dados para
torná-las quantificáveis. Isso nos permite usar a informa&cce=
dil;ão
de novas maneiras, como na análise preditiva: detectar que um motor
está propenso a uma falha com base no calor ou nas
vibrações que produz. Como resultado, podemos desbloquear o v=
alor
implícito, latente da informação” (p. 78,
tradução própria).
[12]
Para uma análise das implicaç&otild=
e;es
do caso Cambridge Analytica para a proteção de dado=
s e a
integridade eleitoral, ver o relatório do Comitê de Cultura,
Mídia e Esporte do Parlamento britânico: Disinformation=
and 'f=
ake news': Final Report. House
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/publications.parliament.uk/pa/cm201719/cmselect/cmcumeds/1791/179104.htm.
Acesso em: 25 mar. 2026.
<=
span
style=3D'mso-bookmark:_Hlk237716985'>[13] Em janeiro de 2025, Mark
Zuckerberg sinalizou um rompimento com o "feminismo corporativo" =
ao
declarar, no podcast The Joe Rogan Experienc=
e,
que o mundo empresarial está "culturalmente castrado" (
André Gustavo
Corrêa de Andrade
Tecnofascismo
&=
nbsp; &nbs=
p; &=
nbsp; &nbs=
p; &=
nbsp; &nbs=
p; &=
nbsp; &nbs=
p; &=
nbsp;
&=
nbsp; &nbs=
p; &=
nbsp; Direito
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